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segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Especial Povos indígenas de Pernambuco - Índios utilizam internet para divulgar cultura

Índios utilizam internet para divulgar cultura

por Jacques Waller

Uma vitrine infinita, para todo o mundo ver que sim, existem índios em Pernambuco. Assim é a internet para os povos nativos do Estado, que vêm explorando a rede e usando todas as suas ferramentas para mostrar ao mundo a realidade das aldeias indígenas. Um dos principais instrumentos na conquista do espaço virtual é o projeto Índios Online do Governo Eletrônico – Serviço de Atendimento ao Cidadão, do Ministério das Comunicações. De acordo com o coordenador nacional, Alexandre Pankararu, o projeto nasceu com o intuito de divulgar a cultura indígena a partir das próprias aldeias.

“Os livros de história têm uma visão deturpada do índio, com o Índios Online, nós podemos mostrar o que é o índio de verdade”, conta Alexandre. Ele diz que o projeto consiste em um ponto de presença de internet com cinco computadores instalados nas aldeias e geridos pelos próprios índios. Ainda segundo Alexandre, em Pernambuco somente os pankararu foram contemplados com um telecentro. Mas, até o final do ano, as aldeias fulni-ô e truká devem receber os pontos de internet. No fim do ano passado, uma outra etnia, os Atikun, em Carnaubeira da Penha, foram selecionados para o programa


“Só falta a verba ser liberada. Já estão destinados R$ 150 mil para as sete etnias e mais quatro que devem entrar este ano, incluindo os fulni-ô e os truká. Só não houve a liberação ainda por causa da reforma ministerial. Mas não deve demorar muito mais”, comenta Alexandre, que comemora o resgate da medicina tradional do povo graças ao blog do Índios Online. “Na página do projeto, há uma ferramenta de blog coletivo, para onde os índios enviam notícias e comentários. Postamos uma matéria falando do vício que os índios de hoje em dia têm em medicamentos de laboratório, esquecendo o conhecimento das nossas plantas. Funcionários da Funasa (Fundação Nacional de Saúde) leram a matéria, entraram em contato e agora estamos terminando de catalogar as ervas nativas da região para voltar a usá-las com fins medicinais”, revela.

Além dos desafios de manter um centro de informática, os índios ainda enfrentam o preconceito dos não-índios. “Nossa internet é o único ponto da região. Isso gera uma certa inveja dos moradores da cidade. Eles ficam até chateados quando descobrem que eu tenho internet", diz a estudante Tânia Silva, 26 anos. Em seguida, conta uma história: "Já aconteceu de eu pedir o e-mail de um amigo e ele ficar se perguntando como eu tenho internet em casa e ele não. O pior é que eles ficam chateados porque eu sou índia e tenho internet. Mas, se eu fosse branca, eles não se irritariam”, relata ela, conhecida na aldeia como Lian.

"O maior problema que os índios enfrentam na inclusão digital é o preconceito social. Muitos não-índios querem que o índio se mantenha desinformado e longe da tecnologia. Justamente porque coisas como a internet fortalecem o cotidiano da aldeia”, afirma o presidente da associação de rizicultores dos índios truká, em Cabrobó, Moseni Araújo Sá. Pai de três filhos adolescentes, Moseni diz que vai fazer o possível para que os filhos tenham o acesso às tecnolgias. “Uma das coisas que quero muito é que eles tenham internet”, diz.

Na aldeia fulni-ô, recursos básicos da informática estão ajudando a preservar a única língua indígena do nordeste, o yaathê. O estudante Siato, de apenas 14 anos, é o responsável pela criação do primeiro dicionário da língua. Ele conta que, apesar de simples, o uso do computador facilitou muito o registro das palavras, que antes precisavam ser mimiografadas. “Terminei precisando fazer uma adaptação com o Paint. No yaathê, alguns sons são escritos com vogais duplicadas e um til por cima. Nenhuma fonte faz isso, então improvisei”, diz o curumim.

Enquanto pankararu e Fulni-ô têm a sorte do acesso à tecnologia, graças a programas governamentais e à proximidade com centros urbanos, a sombra da exclusão digital paira sobre as aldeias localizadas em zonais rurais e de difícil acesso. É o caso dos pipipã e dos kambiwá, etnias cujo parentesco não é só na tradição e no sangue, mas também no isolamento tecnológico. “Internet para nós é um sonho”, suspira o cacique Pipipã, Valdenir Amaro Lisboa , dono do único computador da aldeia, que, mesmo sem acesso à internet, é bastante solicitado pelos índios locais. “Às vezes fico sobrecarregado de pedidos para usar o computador, para bater ou imprimir algum documento. Mas não tem problema. A porta está sempre aberta”, brinca.

“Aqui é um dos maiores exemplos de aldeia sem computador”, brinca o agente de saúde indígena Severino Dionísio, da etnia kambiwá, informando que há apenas uma máquina na aldeia principal, trancada no depósito da Funai e desmontada. “A gente aqui não tem comunicação. Estamos isolados”, desabafa, já que as duas antenas de telefonia - sendo uma via satélite com capacidade para 40 linhas - está desativada. “Só fizeram instalar e mais nada. Nossa única forma de comunicação são dois telefones públicos que, a cada 15 dias, param de funcionar”, afirma. Procurada pela reportagem, a Oi, responsável pela rede telefônica, não indicou ninguém para comentar o assunto.-

Fonte: JC ONLINE